A ascensão da inteligência artificial generativa trouxe um dilema que ultrapassa a mera inovação tecnológica, atingindo o âmago das relações laborais atuais. O recente relato sobre as dificuldades enfrentadas por profissionais liberais destaca uma frase dita muitos contratantes: “Por que vou pagar-te se posso fazer com o ChatGPT?”. Esta mudança não representa apenas uma pressão deflacionária nos preços dos serviços, mas sim um fenómeno sociológico profundo que pode ser analisado sob a ótica da anomia.
“Por que vou te pagar se posso fazer com o ChatGPT? Freelancers contam perrengues do mercado de trabalho com a IA”, publicada pelo portal G1 em https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2026/03/14/por-que-vou-te-pagar-se-posso-fazer-com-o-chatgpt-freelancers-contam-perrengues-do-mercado-de-trabalho-com-a-ia.ghtml
Esta desvalorização do esforço humano em prol da automação cria um cenário onde o conceito de valor se torna volátil e incerto. Quando um cliente questiona a necessidade de remunerar um especialista, ignora a infraestrutura de conhecimento necessária para validar e refinar o que a máquina produz, focando-se exclusivamente na redução do custo imediato. Esta ausência de um novo contrato social claro gera uma fragmentação da identidade profissional, empurrando freelancers para uma precariedade que é tanto financeira quanto existencial, uma vez que o seu papel na divisão social do trabalho parece ser apagado por algoritmos.
No mercado de trabalho atual, estamos a testemunhar um vazio normativo. As regras tradicionais que valorizavam a perícia técnica, o tempo de dedicação e a singularidade da criatividade humana estão a ser desmanteladas antes que novas diretrizes éticas e económicas sejam estabelecidas. O resultado é um estado de desorientação e alienação para o trabalhador, que já não encontra respaldo nas convenções de mercado que anteriormente garantiam seu reconhecimento e subsistência.
A superação deste estado de anomia exigirá mais do que a simples aprendizagem de novas ferramentas tecnológicas por parte dos profissionais. Será necessária a criação de um consenso social sobre o que constitui o valor e o mérito na era da inteligência artificial. Enquanto as estruturas regulatórias e a consciência ética coletiva não acompanharem a velocidade da disrupção tecnológica, o mercado continuará a operar num território de incerteza normativa, onde a eficiência técnica corre o risco de atropelar a dignidade do ofício e a estabilidade das relações humanas.